terça-feira, 11 de março de 2008

A pressa toma conta...

A pressa toma conta de tudo e o medo da obsolescência faz com que o que é dito seja rapidamente apagado pela urgência de algo novo que se tem a dizer. A idéia, antiga da filosofia de se questionar e procurar respostas, de estruturar o que seria o pensar, é restrita aos cursos de filosofia – pra gente que não conseguiu se colocar em nada mais “útil à sociedade”.

O bombardeio midiático à que somos expostos diariamente pouco tem a ver com o “direito de saber”. Conexões muito mais sólidas são desenvolvidas em relação à
lógica de mercado – mercado simbólico – onde as disputas são cada vez mais explicitas.

As relações entre forma e conteúdo estão pesando de maneira diferenciada nas balanças constitutivas dos discursos. É possível perceber quando se pesquisa junto às audiências das classes C, D e E, um esvaziamento da compreensão sobre o que foi dito.

“Nunca na história deste país” o acesso, ao conhecimento, as tecnologias, aos meios, a universidade... foi tão grande. No entanto, continuamos no 72º lugar no ranking dos paises em desenvolvimento, atrás do Congo, do Uruguai... e de qualquer país que preze pela educação em uma taxa maior que 2% do seu PIB.

Educação... lá vem essa conversa de novo! E nada mudou...

O bolsa isso, bolsa aquilo, pro uni etc. ainda, não são capazes de dar respostas às questões que o Brasil apresenta. O mundo do trabalho, como espelho, apresenta rapidamente mapas reflexos da falta de preocupação, investimento e qualidade nos processos educativos – públicos ou privados, ao exibir números ínfimos de crescimento, produtividade e preenchimento de vagas de nível técnico-gerencial.

Ainda exportamos cérebros e a pesquisa nacional se desenvolve à revelia de políticas públicas sérias.

A compreensão da educação como um mercado em expansão, de larga faixa de lucros, jogou a ótica do cliente nos processos de formação educacional/ profissional; assim cada vez menos o termo “universidade” apresenta o universo de arcabouços teórico- tecnológicos, que deveria, na acepção da palavra.

A falsa ilusão de capacitação para o mercado de trabalho tem formado tecnicistas sem senso critico, sem mercado de trabalho para aglutiná-los em suas regiões e isto não preocupa o MEC que permite a abertura destas IES – Instituições de Ensino Superior; assim, rebanhos de portadores de diploma de nível superior gastam seus sapatos na busca de uma vaga como vendedor de varejo ou em empresas de telemarketing.

A falta de uma real política educacional nas esferas públicas, de onde demandam futuros universitários realizando sonhos de ascensão burguesa ou respondendo ao mapa de passos a seguir para que num futuro próximo possa receber em seu trabalho, um ínfimo aumento salarial no lugar de um “bilhete azul’ – porque algumas organizações entendem que ameaçando o empregado de demissão, caso não tenha nível superior, estão “estimulando o crescimento” do seu quadro; faz com que analfabetos funcionais chegam aos bancos das universidades sem o preparo mínimo da leitura e da escrita.

Sem estas ferramentas, exigir interpretação, abstração, elaboração critica, parece piada. Mas é o que acontece dentro das salas de aula. Por vezes, se faz necessário uma desaceleração do conteúdo programático, para tentar minimizar os estragos quando do lançamento de resultados de aprendizagem. Aliás, lembram-se daquela lógica de mercado anteriormente citada?

Estudioso da área de pedagogia da Inglaterra passaram a identificar uma nova pratica nas relações interpessoais no ambiente da escola: o bulling.
Crianças passaram a rejeitar e/ou agredir outras crianças em função de diferenças físicas (gordos, altos, deficientes...), de raça (negros, asiáticos, latinos) ou de classe social. Uma espécie de apartheid se desenvolveu, exigindo assim atenção de pais, professores e psico-pedagogos. Afinal, é na infância que se desenvolvem os conceitos que nortearão a vida adulta dos indivíduos e a convivência com a diferença, sobretudo num mundo globalizado, é condição “cine quanon” para o bem estar coletivo.

Voltando à ambiência universitária, é possível detectar em adultos, ações de bulling entre estudantes de uma mesma classe, com base nas diferenças de rendimento, acesso e de finanças – que em ultima instancia é a geradora das duas outras diferenças citadas.

O distanciamento entre bolsistas e pagantes começa a se configurar de maneira clara dentro das salas de aula em discurso, apartheid social, exclusão em grupos de trabalho e disputas. A falta de base de alguns gera o ônus de um nivelamento por baixo no conteúdo das aulas, provocando questionamentos e protestos.

Outro fator que contribui ainda mais pra o aumento destas dificuldades no setor privado, é o fato de que a oferta de cursos noturnos tem se tornado a tônica das práticas pedagógicas de nível superior, em função da sustentabilidade financeira. A necessidade de trabalhar do aluno – ou do perfil de alunos que estas instituições atraem, faz com que turmas matutinas ou vespertinas sejam economicamente inviáveis.

Quem pode estudar pela manhã ou à tarde, tem, portanto condição financeira para tal, pode se dedicar a sua formação profissional em um tempo de qualidade, interessando-se por cursos oferecidos por universidades federais e estaduais – não pagas – que apresentam forte concorrência por uma vaga. Resta às universidades privadas, de modo geral, alunos de não tão brilhante desempenho e os que se adequam ao perfil dos programas de incentivo do governo.

E a noite passa rápida e cansada quando vista da cadeira do aluno, que após um dia de trabalho, quer mesmo é ir pra casa dormir, torcendo para que os quatro anos que o separam do diploma à que tem direito, passe tão rápido quanto o ônibus no ponto, pra que sua mãe orgulhosa, possa encomendar o pãozinho e a coxinha da comemoração de sua formatura.

- Profi...preciso sair por causa do horário do busu viu? Não me bote falta não que eu to aqui!

Um comentário:

Patricia Lins disse...

Tita, nunca mais postou nada??? Manda aê, pô! Gostei do seu blog. Continue mandando bala e "pitaqueando". Bjjj